Breve Histórico da Arritmologia de Brasília

Nos anos 80 do século passado, a Eletrofisiologia se consolidou e desenvolveu as bases da Arritmologia Moderna. No Brasil, vivíamos anos de um conturbado cenário político e de um mercado interno fechado à aquisição de aparelhos estrangeiros de maior conteúdo tecnológico.  Nesse período, Brasília dispunha de apenas 3 aparelhos do Sistema Holter, 2 em hospitais públicos, e 1 em clínica privada. Era todo o arsenal que dispúnhamos para a investigação das Arritmias Cardíacas na capital federal.

Nesse contexto, vivíamos a era da Eletrocardiografia, sendo discípulos do Dr. Ady Prates Flores, que comandava a residência médica do Hospital de Base do Distrito Federal. Dr. Ady ministrava os conceitos da escola mexicana e nos ensinava, mesmo em face da escassez de equipamentos,  como se apaixonar pela arte da interpretação dos traçados de ECG. E é nesta paixão que identificamos o alicerce que nos impulsionou em direção dos novos fundamentos das arritmias cardíacas.

Em todo o Brasil, iniciava-se um forte movimento em busca de melhor qualificação e capacitação nos novos conceitos das arritmias cardíacas, o que culminou com a ida de muitos de nós para renomados centros de pesquisa na Europa e Estados Unidos. Definiu-se o protocolo do Estudo Eletrofisiológico Invasivo, entendeu-se as técnicas do mapeamento endocavitário, praticava-se a cirurgia para correção das vias anômalas que logo foi substituída  pelas consagradas técnicas da ablação das taquiarritmias supraventriculares.

Chegaram os anos 90, e com eles, a plena redemocratização e abertura do comércio exterior. As importações permitiram rápido progresso no aparelhamento dos hospitais e a incorporação dos novos conceitos nas práticas médicas em todo o país. A Genética começou a dar sua contribuição ao entendimento de algumas formas de arritmias. Aprofundamos a investigação da síncope com a incorporação do tilt test, entendemos melhor a morte súbita e começamos a estratificá-la. Surgia a ablação epicárdica descrita por brasileiros e, logo o aparecimento do  conceito de mapeamento tridimensional, que permitiu chegarmos à ablação da fibrilação atrial e taquiarritmias ventriculares com melhores resultados.  Paralelamente, a estimulação cardíaca artificial progredia: novos modelos e novos conceitos de programação evoluíram para  marca passos cada vez mais fisiológicos. Surgia a possibilidade do cardiodesfibrilador implantável capaz de mudar a evolução da curva de sobrevida de pacientes portadores de arritmias malignas, até chegarmos às técnicas de re-sincronização cardíaca.

E Brasília não assistiu a esta evolução passivamente.  Se iniciamos com a cardioestimulação transesofágica em 1988, em 1990, realizamos os primeiros estudos eletrofisiológicos invasivos. Em 1991, realizamos a primeira cirurgia para a correção das vias anômalas aplicando a técnica do mapeamento intracavitário que, em 1992, estende-se para cirurgia de aneurismectomia dos chagásicos com taquicardia ventricular. A partir de 1995,  começamos a implantar o CDI, a realizar regularmente o tilt test e  a ablação das taquiarritmias, chegando a realizar 500 procedimentos/ano e nos destacamos como um dos centro de referência no tratamento das arritmias cardíacas no país.  Com a aquisição do sistema Carto em 2002, realizamos a primeira ablação da Fibrilação Atrial. Em 2003 implantamos o primeiro Re-sincronizador Cardíaco.

Hoje, no século 21, dispomos de 2 instituições públicas e 7 instituições privadas que disponibilizam de todas as técnicas não-invasivas e invasivas usadas modernamente na investigação e no tratamento das arritmias cardíacas.  Com esse avanço, a cardiologia local conseguiu superar aquele conceito de que era necessário sair de Brasília para buscar tratamento de qualidade. Ao contrário, hoje assistimos a inversão do fluxo de pessoas de outros centros buscando a cardiologia de Brasília para o tratamento dos seus problemas de arritmia cardíaca.

Com essas credenciais, Brasília assumiu a responsabilidade de trazer e organizar o XXVIII Congresso Brasileiro de Arritmias. O último congresso aqui sediado foi em 1995. Desde então, Brasília, com sua arquitetura peculiar, consolidou-se como capital de todos brasileiros, tornou-se patrimônio histórico da Humanidade e assistiu a um rápido progresso, tornando-se a terceira capital em população, com seus 2.570.000 de habitantes que possuem a maior renda per capita do país. Tais indicadores também refletiram nos rankings de qualidade de vida, listando a cidade entre um dos melhores centros urbanos brasileiros para se viver.

Esta é a Brasília que os recebe de braços abertos nesta noite, para desfrutar de nossa hospitalidade e nossas atrações. Queremos dar as boas vindas aos convidados nacionais e internacionais que, com seus conhecimentos  e suas palestras, contribuirão para o nosso aperfeiçoamento técnico. Queremos dar as boas vindas a todos os congressistas inscritos, brasileiros e estrangeiros, que se dispuseram a sair de suas cidades para participar deste evento, esperando ver atingidas suas expectativas por atualização profissional. Aproveitem sua estada para trocarmos idéias, conhecimentos e experiências. Acreditamos  que é assim que se faz ciência e é assim que progredimos em nossa especialidade.

Aproveitamos, também, para agradecer à diretoria da SOBRAC e à Rowan Eventos, pela confiança depositada em nós, na infraestrutura da nossa cidade e na nossa capacidade de organizar e receber este evento.

Finalmente, queremos prestar uma homenagem a todos cardiologistas e arritmologistas que escolheram esta cidade para exercer sua especialidade e que, direta ou indiretamente, ajudaram a escrever a história que aqui contei rapidamente. Agradeço a todos pela união que nos permite dizer com muito orgulho que pertencemos a uma mesma família: A Arritmologia de Brasilia.

Sejam bem-vindos a Brasília.

Bom congresso a todos.

Muito obrigado.

Autor: InCor | 19 de dezembro de 2011